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Acreditar na vitória: o dia que mudou o squash

O dia em que Ross Norman entrou para a história e quebrou a sequência de 555 vitórias consecutivas de Jahangir Khan. A lição deixada é: acreditar na vitória sempre.

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Um lema comum a qualquer esporte é acreditar na vitória até o fim.

No squash, porém, essa premissa ganhou status de lenda no dia 11 de novembro de 1986, em Toulouse, na França, palco da partida mais famosa da história do nosso esporte.

Foi ali que caiu a incrível invencibilidade de Jahangir Khan.

Os números do paquistanês o colocam na prateleira dos atletas de “outro planeta”.

Para se ter uma ideia, entre 1981 e 1986, ele acumulou inacreditáveis 555 vitórias consecutivas.

Para o próprio Ross Norman, seu algoz naquele dia, Jahangir elevou o nível do squash em pelo menos 15 a 20%, enquanto Roger Federer teria feito algo parecido no tênis, mas em uma proporção de 5 a 10%.

Afinal, nem mesmo o suíço em seu auge conseguiu passar uma temporada inteira invicto. Jahangir passou cinco.

Por isso, quando Norman finalmente o derrotou na final do Aberto Mundial (World Open), o resultado estampou as manchetes do mundo inteiro.

A vitória de Ross Norman não foi apenas uma zebra: foi o encerramento perfeito para uma narrativa digna de roteiro de cinema.

Mudança de rumo

Ross Norman começou sua carreira sem grandes pretensões. Entre uma etapa e outra dos torneios amadores britânicos, ele preferia dividir seu tempo surfando e esquiando pelo mundo.

Mesmo depois de se profissionalizar, ter uma casa e um carro na garagem parecia o suficiente. A vida era confortável até o destino intervir.

A grande virada veio em 1983, após um grave acidente de paraquedas no qual rompeu os ligamentos do joelho esquerdo.

O diagnóstico dos médicos foi desanimador: talvez ele nunca mais andasse sem mancar.

No entanto, contrariando todas as expectativas, poucos meses depois Norman já estava de volta às quadras.

A ameaça de uma aposentadoria precoce não só salvou sua carreira, como também acendeu um fogo nele.

Seu regime de treinos, antes encarado de forma quase despretensiosa, transformou-se em uma rotina brutal, a ponto de outros profissionais afirmarem que ele “superou até o próprio Jahangir em intensidade de treinamento“.

Ao longo de dois anos de recuperação obsessiva, ele escalou o ranking até se firmar como o número 2 do mundo.

Quando pisou na quadra do Palais des Sports em Toulouse, diante de quase 3 mil espectadores barulhentos, Norman finalmente se igualou ao rival na parte física e o superou no desejo.

A vitória por 3 sets a 1 (9-5, 9-7, 7-9 e 9-1) cravou seu nome na história.

Foi seu único triunfo na carreira contra a lenda paquistanesa, após 30 confrontos anteriores, dos quais cerca de 20 ocorreram em grandes finais ao redor do mundo.

Como Jahangir Khan reinou por tanto tempo?

A própria natureza do squash daquela época ajuda a explicar essa supremacia.

Com ralis longos que frequentemente ultrapassavam 80 trocas de bola em um único ponto, o esporte era uma verdadeira batalha de atrito.

Nesse cenário, ter uma superioridade avassaladora em ritmo, precisão e preparo físico garantia a vitória a longo prazo.

Partidas disputadas no limite viravam testes de resistência mental, algo que Rahmat Khan, primo e treinador de Jahangir, comparava a lutas de boxe em que “os hematomas ficam do lado de dentro”.

Assim como aconteceu com Norman, a grande virada de Jahangir veio acompanhada de um divisor de águas: uma tragédia familiar.

Em 1979, seu irmão mais velho e grande mentor, Torsam Khan, sofreu um ataque cardíaco fatal em quadra.

Como Jahangir revelou na biografia oficial do feito (555, de Rod Gilmour e Alan Thatcher), a perda o tornou infinitamente mais forte e obstinado:

“Não era puramente por mim. Eu estava fazendo isso por alguém que amava”.

Jahangir Kahn

Jahangir Khan pode até ter sido derrotado por Norman naquele dia em Toulouse, mas a queda não o abalou.

Ele continuou jogando em um nível altíssimo nos anos seguintes e se aposentou oficialmente em 1993, ostentando o recorde histórico de 10 títulos do British Open.

Para o maior vencedor da história do squash, a memória do irmão foi uma chama que nunca se apagou.

E qual foi a estratégia de Ross Norman para vencer?

Além do preparo físico no limite, a chave foi o controle mental.

Norman revelou mais tarde que, ao entrar em quadra, sua meta inicial era vencer pelo menos um game.

Ele sabia que a probabilidade estatística jogava a favor de Khan, mas recusou-se a entrar resignado: queria fazer Jahangir trabalhar duro para conquistar o mesmo nível de respeito que o rival exigia de todos no circuito.

A grande virada de chave aconteceu após o terceiro game.

Norman esteve a apenas dois pontos de fechar a partida em um histórico 3 a 0, mas Jahangir conseguiu dois nicks salvadores a partir do 7-7 e venceu o game por 9-7.

Apesar da oportunidade perdida de encerrar o jogo ali, Norman não desanimou.

Quando seu irmão David veio ao seu canto no intervalo e disse “você acabou de fazer história” (por ter arrastado o invicto a um quarto game tão disputado), Norman voltou à quadra revigorado.

Foi nesse instante que notou algo inédito: Jahangir parecia visivelmente cansado.

Aquele atleta inquebrável estava sofrendo. Foi ali que a dúvida se transformou em convicção, e Norman passou a acreditar de fato na vitória.

Para não deixar a ansiedade atropelar o momento histórico, o neozelandês usou um truque psicológico.

Mesmo quando abriu uma vantagem esmagadora de 7-1 e depois de 8-1 no quarto game, a um passo da glória, ele fingia para si mesmo que tinha um ponto a menos para se manter concentrado no processo.

No fim, a receita para derrubar o imbatível foi uma mistura de respeito, leitura de jogo e, acima de tudo, a recusa em desistir.

Muito além do placar: acreditar na vitória

A trajetória de Ross Norman e Jahangir Khan é prova viva de que grandes batalhas são vencidas primeiro na cabeça para depois se concretizarem na quadra.

O controle emocional, o preparo psicológico e a resiliência em momentos de extrema pressão não definem apenas campeões mundiais, são a chave para qualquer um que busca evoluir no esporte.

Se você quer continuar inspirando seu jogo e entender o que se passa na mente de quem vive as quadras no limite, a jornada não para por aqui.

Vale a pena conferir nossa seleção de artigos dedicada à mentalidade no squash e mergulhar nas histórias marcantes que moldam a cultura do nosso esporte.

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